Resumo: A imagética está intrinsecamente ligada na confecção da linguagem, no extremo da inspiração que subitamente proporciona a ressonância, a magnitude, o máxime, entre os grandes escritores. |
Os grandes rios dimanam das veredas: buritis, pássaros veredeiros e outros animais; puros como a água, o sol, o ar e o fogo – diversificados ao tempo dos dias – são os suplementos sine qua non a fonte inspiradora dos homens observadores; ao contrário, arrefece. Alexandre Barbosa da Silva escreveu o livro, Coisas do meu Sertão de 1946, com prefácio e homenagem póstuma escritos de João Guimarães Rosa. Nesse prefácio há uma análise prodigiosa sobre a originalidade mineira a partir não somente do “sertanista ativo, nos seus 40 anos de sertão inédito”, como considera o escritor de Cordisburgo, mas também de seu pai o “Doutor Quincas”, o “homem do Império; só cerne; varão inteiriço.” (BARBOSA DA SILVA, 1983, p. 5).
Aliás, o presente ensaio propõe, no primeiro momento, enfatizar a questão da originalidade, identidade desses dois homens que vivem, quase todo o tempo de suas vidas, no mundo do sertão mineiro. E no segundo momento, a imagística de Alexandre Barbosa da Silva, filmada em “muitas manhãs de sete cores e tardes amarelas, meter cenas vivas na patrona da sela, e pôr cerca em assuntos virgens”... (p. 9), narra João Guimarães Rosa que o inveja e quase sente raiva, depois de ler fragmento de uma missiva recebida dele: “...o urubu-caçador, pesado e preguiçoso, cabeça de pimentão maduro, em vôo baixo, paralelo ao chão, alisando as grotas com a sombra”...(p. 9). Alguns habitantes deste território incomensurável que vieram a ser personagens – a bem da verdade os próprios escritores se tornaram personagens – inspiraram, renovaram e criaram palavras. Daí a linguagem: costumes e hábitos e imagens que essa gente excitou os dois escritores que foram capazes de revolucionar a literatura – principalmente João Guimarães Rosa no seu deslumbrante e instigante livro Corpo de Baile (Rosa, 1956). Não podemos esquecer, portanto, a linguagem utilizada nos contos de Coisas do meu Sertão que se caracteriza pela símile no que tange à linguagem esboçada por Guimarães Rosa, este em sua pujança literária elaborada bem antes da década de quarenta em Contos, que viria a ser mais tarde, 1946, o fabuloso livro de nove novelas Sagarana. Analisaremos a originalidade do sertanejo mineiro que se reflete, fundamentalmente, na presença do pai de Alexandre Barbosa da Silva, o Conselheiro Dr. Antônio Joaquim Barbosa da Silva, alcunha de Dr. Quincas. Este, sim, ilustre mineiro, que Guimarães Rosa considerava nestes termos: Sabemos que o doutor Quincas foi um egrégio mineiro, um homem estranho e um brasileiro de estatura. Não creio que em dias de sua vida tenha ele podido defrontar com muitas pessoas de inteligência a par com a sua; quem o superasse, porém, nesse terreno, estou certo de que, se encontrou, teria sido fato discutível, ou mal averiguado, ou raríssimo. Era um Dom. Uma floresta de inteligência. Mas, mato não virgem, vista a vista sua cultura jurídica, filosófica, literária, histórica e linguística. (BARBOSA DA SILVA, 1946, p. 5). No prefácio do livro Coisas do meu Sertão intitulado Quatro Palavras, ainda na p. 5, outras características humanas, marcantes, do Doutor Quincas, das quais não podem passar despercebidas, pelo simples fato de que realçam a personalidade mineira, estas reafirmadas por Guimarães Rosa: Homem de saber, de mandar, de poder. Mas era também austero e armado. Com uma demasia de força pessoal e extravazantes sobras de energia, caracterizavam-no impulsos de um temperamento sanguíneo-colérico, aspérrimo; e, mesmo com mar manso, dava brisa de ironia, mordaz, crítico, ranzinza, implacável, às vezes genial de espírito. Dele, quando menino, ouvi contar soberbas anedotas, já hoje lendárias. Terrível homem, o Doutor Quincas. Brilhou no foro, na Assembleia Provincial, no jornalismo (p.5). A Proclamação da República, em fins do século XIX, foi um fato a que o Doutor Quincas, como diretor da Secretaria da Marinha, jamais se deu por vencido ou resignado. Durante o escarcéu, as represálias, prisões e motins da Proclamação, ele acompanhou o então Barão de Ladário, ferido, até a sua residência. Posterior aos acontecimentos políticos, Doutor Quincas ficou recluso durante dias em seu quarto e tomou uma decisão definitiva de pedir demissão, mas teve de repetir várias vezes o pedido. Resoluto e bravio em suas convicções viajou para Minas Gerais. A partir daí recusou sistematicamente todos os cargos políticos a ele atribuído, e não foram poucos, rejeitou pedidos de seu amigo Cesário Alvim – então Governador do Estado mineiro – e até mesmo de Afonso Pena que o queria em suas pastas. Sua decisão foi irredutível. Em minas Gerais, mal conseguira algum dinheiro, Doutor Quincas comprou uma fazenda no meio do sertão, “nos fundões, no perdido. Para lá se pôs, com a família, e fez-se agricultor”. (p. 6), num lugar de nome Tabocas. Mesmo pobre, criou dez filhos. Lá no meio do sertão assinava o Times e relia autores como Goethe, Dante, Carlyde e outros e tantos tratados de economias, mas de qualidade. Transmitiu aos seus filhos ensinamentos de línguas em principal o alemão. Sobre Doutor Quincas, Guimarães Rosa o considerava ainda “Um original, em todos os sentidos, sem ser um excêntrico, digo eu. Ao contrário, centrado até demais. Mas sempre rígido, irônico e convicto”. (p. 6). Enfim, Doutor Quincas viveu por lá até a morte. Alexandre Barbosa da Silva, um dos filhos do Doutor Quincas, e sobre isto Guimarães Rosa dizia “e isso não era coisa de ser-se impunemente” (p.5), fora instruído categoricamente. Aos cinco anos de idade sabia ler e aos seis estudava francês pelo método Ahn. Aos dezessete lia inglês e alemão, entre outras línguas. Nunca que Doutor Quincas pudesse permitir que seus filhos cursassem cursos oficiais ou carreira urbana, que colocasse “um deles no brejo da política”. (p.6) Queria sim, Doutor Quincas, que seus filhos fossem “aptos e equipados para a vida prática”. Até a maioridade, Alexandre Barbosa da Silva tudo fazia, com seriedade, na Fazenda Tabocas num trabalho rotineiro: ainda cedinho, de madrugada, logo após ordenhar as vacas no curral, ia direto castrar bezerros, lavava as mãos em uma bica de água corrente, e via-o na varanda da fazenda a ler Goethe – provavelmente no original. Logo em seguida acompanhava os trabalhos na Fazenda Tabocas: nas roças, nos reparos das cercas nas cercanias e com os vaqueiros a juntarem e curarem o gado. Aos domingos, então, Alexandre Barbosa saía a caçar codornas naqueles campos daquele mundo. Aos dezoito anos de idade completos, Alexandre Barbosa da Silva, não aguentando mais as turrices do seu pai, saiu para o mundo do sertão e lá fora continuava ser de tudo na vida: vaqueiro, madeireiro, fazendeiro, tintureiro, negociante de gado, boiadeiro, gerente de fábrica, gerente da Mina da Passagem em Mariana, professor de línguas, propagandista, comerciante... Só não foi funcionário público por obediência a seu pai que não queria. Citarei uma de suas tantas façanhas profissionais. Como madeireiro, Alexandre Barbosa da Silva tinha como endereço fixo o mato virgem, pois pretendia criar indústria de extração de madeira. Ele dormia em barraca armada em clareiras ou em ranchos de sapé. Para se ter ideia, por muito tempo residiu debaixo de uma imensa árvore de gameleira, de catedrascas sapopembas “na formosa região” – relata Guimarães Rosa –, em terras da fazenda da Ponte Nova, à margem esquerda do Rio das Velhas, no Campo do Segredo. Seu empreendimento obteve êxito pois vendia toras de madeiras de diferentes espécies (peroba-rosa, vinhático, aroeira do sertão, jatobá...) para escorarem a Mina do Morro Velho. Segundo Guimarães Rosa, Alexandre Barbosa da Silva sempre se entusiasmava ao relembrar aquela época: “das tremendas labutas dos dias, do grugulejo das seriemas, à tarde e à noitinha... aquentava-se a um fogo aceso em plena a mata, e via o clarão da fogueira refletir-se nas folhas das altas árvores, que brilhavam como pedrarias”. (p. 8). Juntamente com os carreiros, guias e lavradores de madeira, Alexandre Barbosa discutia os trabalhos que seriam feitos posteriormente. A luz da fogueira clareava o trabalho de um carreiro para consertar tamoeiros ou fabricar canzis de reserva e Alexandre, entre uma ordem ou conselho e uma frase encorajadora, tentava reler o Wilhelm Meister até a hora de ir dormir, “sob as raízes da sua gameleira, alcova com paredes de seiva viva, onde todo cheiro era a terra.” (p. 8). Nesse empreendimento ele venceu bem – comenta Guimarães Rosa. Após o casamento, Alexandre mudou de vida e de lugar, obviamente. Adquiriu uma fazenda (Monte Alegre) lá pelo norte de Minas Gerais, perto de Contria, região tida como perigosa, inóspita e faroéstica. De lá, ele e sua família só saíram com escrúpulo para acompanhar e educar seus filhos, num total de oito, em cidades maiores – Curvelo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, caçoa Guimarães Rosa, Alexandre ainda armazenava energia para empreendimento como: criar indústria de conservas de siris pescados na Baía da Guanabara e criar lontras na Barra da Tijuca. Daí, de repente, adoeceu agudamente e por orientação médica teve que arear suas atividades; vieram regimes, limites e repouso imposto. Porém, em sua bagagem de mais de 40 anos de “Sertão Inédito, de sertanismo ativo”, como dizia Guimarães Rosa, pudera Alexandre registrar belas paisagens matutinas, vespertinas e noturnas. Enfim, a matéria-prima para ferramentas mais finas. Então, devido a tanta saudade acumulada escreveu Gerais e Chapadões, que posteriormente mudara de título: Coisas do meu Sertão. Em mensagem dirigida ao leitor, Alexandre Barbosa da Silva, p. 15, ressalta com reverência o seu sertão com essas linhas: Quando, mais tarde, pude gozar o conforto da civilização, pus-me a fazer comparações e percebi que nada pagava a liberdade do homem que vive da própria terra, tirando disto a conclusão de que nada mais certo é que o velho adágio: “Planta e cria e terás alegria.” A imagística, no segundo momento, portanto, destes dois escritores – de estirpe sertaneja – registrada em suas observações participantes no universo rural, proporcionou a confecção da linguagem na qual não podiam ser divergentes. Pressupõe-se, assim, entre eles o extremo da inspiração de que subitamente só se espera a magnitude, a ressonância, o máxime, a convergência ao esboçarem em linguagem única o ambiente sertanejo. Comentários de Guimarães Rosa sobre o livro de Alexandre Barbosa da Silva: O que melhor me alegra e entusiasma, todavia, aqui páginas afora, é a repetida presença dos “gerais” belíssimos da minha terra, com a suas “veredas” específicas. Esses “gerais”, que arrancham infindável paisagem, feitos de campos e areões e o agreste das chapadas, sempre o chão de arenito. Lá e além, um alagado, pai de rio às vezes, marcado pelos buritis. Beirando os rios, e entre os rios e as chapadas verde velho, vai dupla faixa atapetada, capim de um verde infantil. São as “veredas” dos “gerais.” (BARBOSA DA SILVA, 1983, p.12). E comenta mais João Guimarães Rosa no prefácio do Coisas do meu Sertão, “... E indo, e indo, nunca se afastando da água, se alongam os buritizais. Cada buriti é um rei, e há reis em multidão.”(p.12) Agora, em muitos dos contos nesse livro, sempre aparece de forma desconcertante um parágrafo menor entre parágrafos maiores, como é de costume na obra rosiana, que muito intrigaram os críticos e leitores. Por exemplo, neste parágrafo: “Afinal, o sol descamba no horizonte”, no conto “O Dia do Roceiro”, (BARBOSA DA SILVA, 1983, p. 162).
Por fim, Guimarães Rosa em homenagem póstuma (com data: Rio, 21 de março de 1957) a Alexandre Barbosa da Silva quase 10 anos depois, comenta os seus últimos momentos de vida em que o amigo Alexandre lhe pedia sempre que o visitasse em sua casa, mas, diante da emoção do encontro de “conversas roceiras” – no dizer de Guimarães Rosa – , que o deixavam excitado e pior, Guimarães Rosa privou-o de sua visita.
Durante a agonia Alexandre ainda disse:
– Chamem o Guimarães Rosa, para ele ver como morre um sertanejo!”(p.13).
Mediante tamanha emoção Guimarães Rosa relata:
“Da sincera saudade, a gente não sabe falar direito. Mas sei que, um dia, ao chegar, por minha vez, até lá, com ele toparei, e poderei pedir-lhe:
– Vamos, Alexandre, vem me mostrar como é que é o sertão deste Céu... (p. 13). Nesse sentido, conclui-se que Alexandre Barbosa da Silva, depois de uma longa história de vida no sertão, com muitas afinidades, apaixonadas e rosianas, nos deixa a impressão de que João Guimarães Rosa não pôde descartá-lo como grande personagem de sua galeria. A bem da verdade, por justiça sertaneja, não somente Alexandre como o seu pai Dr. Quincas, personagens originais do sertão mineiro, estão encarnados em níveis iguais ou superiores aos de um Riobaldo, Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Joãozim Bem-bem, Surupita. Quem vai saber ao certo???!!! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS; ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. ROSA, João Guimarães. Noites do Sertão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. BARBOSA DA SILVA, Alexandre. Coisas do meu Sertão. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1983. |
Biografia: NEWTON EMEDIATO FILHO natural de Belo Vale, em Minas Gerais, filho de Newton Emediato e Virgilina Augusta Emediato. É formado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Graduou-se em Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Política). E se especializou na Faculdade de Direito, da mesma Universidade, em nível de Mestrado – Assessoria Técnico-Legislativa Avançada. É autor de vários ensaios sobre a obra de um dos maiores escritores latino-americanos, João Guimarães Rosa, tendo participação ativa em seminários internacionais realizados pela PUC/Minas sobre Guimarães Rosa. Um Carro de Bois que Transportava Logos é o seu primeiro romance com comentários feitos por Luís Giffoni: [...] Já disseram que Minas são muitas. A literatura também. Um Carro de Bois que Transportava Logos viaja por algumas delas [...]. O conto Um Papagaio Palimpséstico foi selecionado no Festival Festivelhas, originado pelo Projeto Manuelzão/UFMG, realizado no Morro da Garça/MG – em Novembro de 2005. Rio das Velhas em Verso e Prosa, Projeto Manuelzão, Instituto Guaicuy – SOS Rio das Velhas, primeira edição, dezembro – 2006. O conto Um Papagaio Palimpséstico foi agraciado com Menção Honrosa no 5 Concurso Guemanisse de Contos – dezembro de 2007 –, que foi o mais concorrido concurso literário promovido pela editora. O conto Um Papagaio Palimpséstico faz parte da Antologia bilíngue Era Uma Vez... (Editora Lura) e lançada na Bienal do Rio 2025. Palavras mini-conto publicado no livro de coletânea Letras Mínimas pela Editora Guemanisse, Rio de Janeiro, 2007. É autor também dos livros Todos os Dias de Ontem - Prêmio Funarte 2013 e Um Tempo para Ler ( Editora Sangre Coleção 32 - 2019 ). E, além disso, tem um livro inédito de cem haicais intitulado: Perfume na Pele de Terra. E-mail: newdiato@hotmail.com |
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Minudências no mundo rosiano: Alexandre Barbosa da Silva, amigo do sertão e de João Guimarães Rosa, manda lembranças
domingo, 26 de junho de 2011
Fragmentos Um carro de Bois que Transportava Logos
Logo acima depois do Brejão, perto da nascente d’água, numa fazenda quase abandonada, é o local do velho engenho incrustado nos morros. Ali, tempos passados, pessoas mil o trabalho atraia no fazer de açúcar preto, melaço e rapadura.
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No caminho de volta, já na estrada, abaixo da linha de ferro, o eixo do carro de bois aos poucos vai esquentando. Basta secar um pouco e o canto agudo, mascado, torna-se grave até atingir o seu canto estridente, original. As mulheres da cozinha quando ouvem de longe o canto de agudo pra grave do carro de bois, canto arrastado, se apressam no avanço das panelas no fogão de lenha.
Seu Esteves, da janela de seu quarto, ruborizado e esbraveja, não acredita, enche os meninos com suas palavras iradas, ao avistá-los deitados sobre as espigas de milho, ainda molhadas, refletidas pelos raios do sol. Já é quase hora do almoço. Assim o carro de bois entra pelo curral da fazenda e esbarrara de cantar de vez. A porteira bateu... O milho secando... E o movimento dos homens.
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A Casa do Jaleco
O retiro, de nome Jaleco, é daqui a algumas léguas: uma invernada cobiçada, de bons pastos, principalmente na época das águas e depois na seca por se tratar das baixadas recônditas onde se preserva o verde, e a água. Seu Esteves o utiliza para a engorda do gado solteiro e num piquete mais próximo para as vacas mojadas. Esse piquete se expande até na divisa com o pasto, nos arredores da fazenda, na porteira do alto.
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Nos três poços da Caruaba sempre que possível é bom nadar lá. Águas que vêm do Brejão do Jaleco, as mesmas da cachoeira a duas léguas morro acima. Primeiro perpassam pela bueira – nível de passagem férrea –, e daí formam pequeno poço. O segundo poço é o preferido; nem fundo nem raso. O terceiro é fundão e redondo, sombreado por quatro grandes árvores de ingás, perigoso para todos os meninos. Há tempos, neste poço, um homem, modo de pegar bons peixes, fez explodir algumas de bananas de dinamite. A água dali corre num desfiladeiro para confluir com o Rio Paraopeba.
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O quarto do fundo é dormitório dos meninos, é quando lá se recolhem, ficam de olhos acesos tentando descobrir as palavras que foram colhidas e coladas com grude, de jornais e revistas, na janela fechada, pelo tio irreverente, excêntrico e arrivista. É o tio Lolival, e não podia ser outro.
– Feche a janela pra mim poder ver e enxergar e encontrar as palavras! – Exigiu Gugulim, deitado em sua cama.
Tarde da noite, um ou outro adulto ia tirar à água da usina e desviá-la, a partir daquele instante, para mover o munho. A fazenda inteira fica no escuro.
Os meninos, debaixo das mantas de dormir, tentavam descobrir as palavras, disputando para ver quem as encontram mais rápido. Num canto do quarto do fundo uma cama está sempre pronta à espera do tio Lolival, que também gosta de brincar de encontrar as palavras. Cada hora era um que escolhia a palavra que deveria ser descoberta. O primeiro a encontrá-la era quem procurava a próxima palavra que todos os outros deveriam procurar no mosaico estampado na janela, e assim por diante. Gugulim com seus olhos arregalados não perdia tempo, e logo apontava com o dedo o achado: a palavra. A luz da lâmpada ia se apagando lentamente e as palavras não mais eram vislumbradas, mesmo com as vistas apertadas dos meninos tentando descobri-las. Nas camas, sonolentos, todos adormeceram no escuro.
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O carro de bois, vazio nesse instante, vai atravessar o Rio Paraopeba de águas turvas. Acima das cabeças, as folhas e galhos das árvores ciliares. A sombra salutar. Zé do Buteco abaixa a sua cabeça, arrumando seu velho boné de soldado do Exército.
Zé do Buteco sabe muito bem que atravessar o rio com o carro de bois leve é mais difícil que ele totalmente pesado, porque pesado o carro tem atrito poderoso no chão das águas. Porque a própria tração da força exercida pelos bois em equilíbrio com a força da correnteza, irada, faz com que o carro só então siga o caminho certo.
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Durante os meses de maio e junho, que denotavam ares de rumos melhores ou inusitados, inesperados, e em dias secos, o sol mesclado com o frio das montanhas, capim queimado, e por dentro da casa grande, sua dona se sentia com o corpo morno e podia avistar todo o recanto com sua curiosa fiscalização diária.
Cheiro de Sol Nas Tardes de Domingos
No sol comprido de meio-dia, depois do almoço e início da tarde, os meninos preguiçosos, durante conversa, pensavam em diferentes invenções de divertimentos. Tio Lolival, desinquieto com as mãos cheias de pedaços de madeira, fazia grude em caneco velho encostado na trempe do fogo de lenha, e sobre a mesa de tudo se pode imaginar: martelos, e a truquês, dos grandes e dos menores; pregos de todos os tipos; furão; arames; taquaras de bambu bem alinhavadas; e apetrechos maneiros.
Palavras
A velha cambona, outrora de boa serventia, permanece no canto escuro da despensa, abandonada. Antes era de grande utilidade: viajava à noite, caçava, pescava, pegava frango no quintal, atendia as visitas que chegavam de viagem, iluminava o caminho da estrada. Consumia bastante querosene e seu lume tinha enorme raio de ação.
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