Neste trabalho tenta-se analisar a visão pedagógica de João Guimarães Rosa incorporada no comportamento de Miguilim, convergindo-se com o marco teórico em Jean Piaget, no que se refere ao conhecimento, sobre interpotencialidades (biológico e mental)-, da inteligência inerente ao personagem. Miguilim que traz em si a criança em idade escolar, demonstrando sua endogenia chamada inteligência, saber, cultura e comportamento.
As categorias básicas de Miguilim podem ser observadas em muitos momentos da novela em suas estruturas amplas, móveis e estáveis, defende Jean Piaget, em um processo inesgotável na busca do epistêmico: aberto ao meio e fechado à organização, é, portanto, Miguilim um sujeito epistêmico; aberto ao mundo, apresentado durante todo o tempo na narrativa a sua dialética com seus familiares; outros personagens; o meio físico, os animais domésticos; a cadelinha Pingo-de-Ouro... habitantes da distante mata do Mutum. No entanto, uma relação epistemológica, que ocorre várias vezes, ambígua, entre a vida e a morte.
Procede observar em Miguilim a mais profunda estrutura genesíaca da formação do conhecimento, exemplo explícito, psicogenético, no diálogo com o seu irmão Dito: " Dito eu às vezes tenho uma saudade de uma coisa, que não sei o que é nem de onde vem, me afrontando."(Rosa, 1984, pg. 61).
Ou melhor dizendo, Miguilim busca incessantemente, de forma natural, o conhecimento brotando da própria vida. Nos diálogos de Miguilim, em todos os momentos, deixam aflorar a gênese das formas elementares da dialética do conhecimento, de origem psicogenética, o que ocorre em todos Miguilins para sustentar o conhecimento na construção do sujeito, na ação, de si a si, em profunda interação com o objeto (que é tudo, menos o sujeito) e se processa de forma clara na perspectiva da visão de mundo em favor da objetivação daquilo que o objeto é ao menos nos limites do social ou individualmente cognoscível.
Eis a dialética do conhecimento em sua tríplice dimensão: "interiorizável (perspectiva do sujeito) e exteriorizável (na perspectiva do objeto) e, por última a perspectiva sintetizante (modelos)" (Piaget, 1973, p. 38). Sendo esta definição o que Jean Piaget chamou de dialética do conhecimento; pela qual se processa de forma natural conduzindo o sujeito em consonância com o mundo relacionando-se o binômio sujeito e objeto, quando, nasce o que se chamou de "tertium", o que é cibernético orientando-se definitivamente na "teoria da auto-regulação".
Entretanto há, pertinentes análises na novela Campo Geral encontrada neste cenário do personagem citado, que observa, para se levar a efeito o processo da auto-regulação orgânica que poderá se fundamentar o processo de avaliação na condução e inserção do desenvolvimento continuado do conhecimento do (docente e discente); e, assim, potencializando a estrutura filogenética (espécie, desenvolvimento-histórico) e a ontogenética (individual, desenvolvimento-morfológico). Observa-se, portanto, na personagem Miguilim e demais outros, à ocorrência genética da adaptação, que na verdade, é o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação (que é dinâmica) e, assim, comparativa, caracterizada pela assimilação cognoscitiva.
Ao empregar o artigo indefinido "um", no início da novela do livro Corpo de Baile: na novela Campo Geral: Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos...(Rosa, 1984, p. 13). João Guimarães Rosa revela-nos sua capacidade de universalizar detalhes, no instante da palavra adotada ou criada. Podemos observar nesta obra o diálogo de Miguilim com sua mãe, o qual vem ilustrado pela parlenda: "Vaga-lume, lume, lume, seu pai, sua mãe, estão aqui!..." (Rosa, 1984, p. 79). Esta parlenda remete-se, indubitavelmente, a constatação genética em que a espécie (muito especial à humana), é o ancestre e também o descendente; no qual, a mãe vem proteger o filho contra o medo da escuridão, daquele lugar de total abandono... N'outro diálogo: "Mãe que é que é o mar, Mãe? Mar era longe, muito longe, dali, espécie de uma lagoa enorme, um mundo d'água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava." Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?"Miguilim parava." (Rosa, 1984, p. 79). Nesse ínterim, a inteligência com sua estrutura psicogenética (existente em todos os Miguilins); quando Miguilim reflete, atuando na construção do conhecimento e por processo orgânico e contínuo, segundo análise do desenvolvimento cognitivo, pela assimilação da relação com o mundo, que logo se depara numa lacuna onde o objeto de ação educativa se faz ausente.
Nessa perspectiva que os inúmeros modelos de uma ação pedagógica genuinamente na obra de João Guimarães Rosa vão subsidiar a escola sendo coadjuvante do processo de construção do conhecimento, que, por extensão, interfere no próprio meio onde se encontra a escola, dando-lhe bases de auto-sustentação e, por conseguinte, preservação humana e ambiental. Integram-se, a partir daí, as categorias básicas do sujeito (docente e discente), descritas epistemologicamente: inteligência, saber, cultura, comportamento, que se concerne no universalismo de um certo Miguilim que habita nas veredas compostas pelos elementos da natureza: água, terra, ar e fogo, embora, sofrem também a degradação humana a ser reversível. Ambos, criança e ecologia, abandonadas a toda intempérie.
O encontro quase enigmático entre o criador e seu personagem, nos momentos finais da trama, demonstra o caminho, e é ele, o personagem, Miguilim, que será o objeto da ação sócio-educacional. Portanto, apesar da migração, mister a permanência dessa criatura em seu estado natural, concepções diametralmente opostas, mesmo assim, à postura humana do criador de galvanizá-la tendo como a posteriori os ensejos: a ação permanente da palavra citada, a preocupação com o homem e, em especial, preservação das tradições culturais. A homogeneidade de linguagem se predestinando única, padronizada, obtida através da mídia: a televisão, que ocorreu e ocorre, se difundiu rapidamente no sertão dissipando outros diálogos; impedindo outros encontros e, simultaneamente, à transferência destes atores para os grandes centros urbanos brasileiros em busca de sobrevivência.
Acarretando dois fatores cruciais de ruptura cultural. Um o fim da questão da atividade da cultura de subsistência, à harmonia comunitária, destes pequenos agricultores e outro fator situado entre a fronteira; ou melhor, intrinsecamente ligado ao fator primeiro, que é a perda nítida de identidade. Um dos fatos mais cruel imposto que ocasionou a esta perda de identidade caracterizada pelos costumes, vivência e hábitos dos sertanejos, fora à extinção do trem-de-ferro no final da década de oitenta do século passado. Atitude governamental de extrema persuasão autoritária deste ato que dirimiu as tradições culturais mineiras, verificando total desrespeito aos valores humanos da cultura endógena de um povo, em seu ethos natal. Numa inversão de valores significativos e de consequências sociais nefastas: o que deveria manter o termo subsistência troca-se por sobrevivência e por fim de transformação por transferência.
Estas mudanças perniciosas degeneram as relações humanas variáveis culturais que deveriam ser imortalizadas. Dai a relevância visceral da obra Roseana, documento de preservação cultural, que se mantém de forma perene e é capaz de regenerar todo esse processo dizimado, cujo objeto para agir é obtido pelo próprio conhecimento. O que leva além da superficialidade humana é a degradação do meio ambiente principalmente quando esse contingente se concentra nas periferias dos centros urbanos. Persistindo ainda, neste campo fértil de trabalho, acessivel, o discurso escuro; ainda que inteligível, elegante, porém de uma vacuidade mórbida - dispersa...
Fundamental que trilhemos a trilha de terra a discutirem teses no concreto das cidades. As veredas estão abertas nesse universo lúdico roseano, basta-nos configurá-las em busca do desenvolvimento. Quando Miguilim depara-se com a descoberta de um novo mundo no instante em que o doutor Lourenço, capta sua miopia e sensibilizado, lhe empresta os óculos; demonstrando real afeição à criança, relação de grande afinidade, irá, então, Miguilim estabelecer novamente inserção com a alegria.
No segundo encontro, pela manhã na passagem do doutor, em busca do pequeno, mas uma vez seus óculos, objeto que reintroduz a descoberta e a ânsia de Miguilim pedindo os óculos, para despedir de seus familiares, do lugar. Ele observa a todos, todo o meio-ambiente e diante da presença de seu tio Terëz, diz: "- Tio Terêz, o senhor parece com Pai..." (Rosa, 1984, p. 142). Nota-se, mesmo naquele instante, que Miguilim logo pensará no pai, em sua figura. Por que? Se mal enxergava como ele vislumbra e assimila a imagem do pai? O leitor atento perceberá logo de imediato que nos entreveros entre Miguilim e seu pai momentos em que quando o pai lhe pegará nos braços para castigá-lo. De tal forma que essa proximidade fizera com que Miguilim visualizasse melhor às caracteristicas faciais do pai. Então ele busca a imagem e lembra do pai, numa cena impregnada com todo seu afeto. O afeto...
Novamente o autor, nas entrelinhas, vida e obra tudo se relaciona, transcende-se, e João Guimarães Rosa nos faz meditar quando em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras nos relata: o afeto propõe fortes e miúdas reminiscências… .
Miguilim, muitas vezes, constrói o seu conhecimento pelo saber inconsciente. Porque o sentimento de afeição mútua ocorre sempre com outros elementos: de compreensão, de percepção e este sentimento de alegria é cognitivo. Nas fusões de imagens do pai, o irmão Dito morto e da estimada e saudosa cadelinha "Cuca Pingo-de-Ouro... Miguilim, em misto de sentimentos nobres, busca com sua força energética novamente a afetividade com a surpresa da fala de um papagaio domesticado," Sempre alegre, Miguilim... Sempre alegre, Miguilim..."(Rosa, 1984, p.142). O elemento da natureza, ao som da fala do papagaio, e o menino segue montado no burrinho, com seu farnel, em busca de novos territórios. O alimento é fulcral, o alicerce, que irá evidenciar esses elementos, (afeto, alegria, compreensão e percepção), na consolidação do saber e do conhecimento.
E o doutor com toda emoção escancarada tenta escondê-la, sabendo de antemão as passagens de vida de Miguilim. A presença do doutor e seu pragmatismo salutar ameniza, desdramatizando, o futuro da criança. E é dele, do doutor, a posse do saber e do conhecimento, instrumentos a serviço da ação, porque raro o instante em que o criador se interage com sua criatura como o único sentido de salvá-la. Também, "as instituições democráticas", responsáveis pelas demandas paradoxais do outro; que, podem legitimar a transformação necessária do homem, indicando lhe o norte, o caminho certo.
Miguel, já adulto, trafegando pelo sertão afora, baldeando produtos veterinários, se lidando com vacinação de gado, com toda a sua instrução como provável profissional da área, "Noites do Sertão" (Rosa, 1984, p. 108).
Portanto, Miguilim está lá, com seu conhecimento telúrico, assimilante e sua obtemperação, como o campo aberto para o processo cognitivo, sequencial e irreversível. Sua mãe, mesma, que toma a decisão com o destino profissional de Miguilim, assim como tantos outros pelo sertão afora... inspiração para a trajetória da Escola Sagarana de Minas Gerais-, porque ele sente pesar de abandonar seu bonito Mutum.
Referências bibliográficas:
PIAGET, Jean. As Formas Elementares da Dialética. São Paulo, Casa do Psicólogo. Livraria e Editora Ltda, 1996.
PIAGET, Jean. Biologia e Conhecimento:ensaio sobre as relações entre as relações orgânicas e os processos, Cognicitivos. Petrópolis, Vozes, 1973.
PIAGET, Jean. Epistemologia Genética, São Paulo. Ed. Martins Fontes, 1990.
PIAGET, Jean. O Nascimento da Inteligência na Criança. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
PIAGET, Jean. Psicologia e Epistemologia. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1970..
PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1978.
ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. 13-61-79-79-142-142
ROSA, João Guimarães Noites do Sertão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. 108.