sábado, 25 de julho de 2015

Um papagaio Palimpséstico

Naquele dia – na beira da tarde –, logo acima do curral oval de poucas gramas, estavam sentados Pedro pai e os meninos da fazenda. Todos sentados na parte de capim menos castigado pelo gado. O tempo caótico naquelas paragens... O vento – forte e frio – expulsava as nuvens nefastas, armadas longe. No vale as nuvens aglomeram e às vezes com trovões pequenos. Portanto, há qualquer momento poderia chover – é o fim da colheita das grandes plantações de milho e feijão na Soparimba. Pedro pai manipula um saco plástico de adubo e, com suas mãos ásperas, dá retoques simétricos no quadrado de plástico. Para isso usa uma velha tesoura de ferro de tosar as crinas dos cavalos; tem válida serventia. Nesse saco plástico, reciclável, as palavras grafadas em letras grandes se encontram danificadas e até apagadas. Ao lado daquele cocho, na grama, em repouso há três gravetos medidos de alecrim coletados no cerrado, horas atrás. Além disso, jogados no chão, um facão e uma foice mal amolados. Nesse chão, Pedro pai estendeu o saco tosco, bem aberto e desamassado, que permaneceu ali na espera sobre a areia misturada com o barro de estrume de gado seco. Pedro pai contém um riso enigmático nos lábios, experimenta os gravetos, alisa e morga-os. Repara bem. O experimento pode resultar, no final, em logro para os meninos de olhos espertos e ansiosos. Os gravetos, em forma de cruz, são amarrados com pedaços de embira. – Pedro pai, quando ocê rasga a embira com as mãos embebidas de restos de água, ela traz cheiro tão bom! O graveto mais comprido, quando é alisado a canivetadas, morgado no amarro, forma em equilíbrio uma meia-lua. Logo após essa envergadura, também amarrado nas partes superiores dos dois gravetos – em forma de cruz –, o esqueleto da estrutura é testado contra o vento várias vezes seguidas. Sobre o saco plástico, a armação estruturada de forma aerodinâmica teve o amarramento ordenado – bem posto e caprichado. Tem de fazer, então que faça com calma, é fato indubitável! Pedro pai perscruta o tempo, pois o seu maior desafio está prestes a acontecer e tem que contar com a sorte e com o tempo. Verifica e aperta bem as amarrações do seu empreendimento. A rabiola, por fim, os meninos a fazem utilizando um bom barbante grosso e restos de outro saco plástico. Mas quando Pedro pai testa o seu protótipo imenso – capaz de assustar qualquer transeunte –, levantando-o contra o vento, percebe o estorvo e solta vitupérios, descartando de imediato a rabiola que rabeava – puxando de lado –, o que deixou os meninos boquiabertos e queixosos... – Vumpt, vumpt... é o vento forte contra o enorme papagaio de Pedro pai. Nessa perspectiva, os meninos correm a conduzir, a uma certa distância, o papagaio, levantando-o até quanto pudessem. No vento muito forte o papagaio foi solto, rompendo os bambuzais... alçando vôo... decolando... enfim. Na verdade, bastou largá-lo e o tempo se encarregou, num instantâneo, de realizar o resto. Parecia mais que nem um passarinho; Pedro pai realçou isso em seu rosto, na hora. Aquele papagaio imenso, que foi motivo de tanta burlescaria, agora estava nos céus da Soparimba. As escritas no plástico, ainda nas alturas, se deixam vislumbrar ora sim, ora não. A manivela com a linha de nylon adquire um peso dantesco e, aos poucos, Pedro pai libera mais e mais linha. O vento cada vez mais forte sopra no vale da solidão. O céu está carregado de uma cor turva que vai se acumulando – concentrando no vale. O peso aumenta ainda mais quando os meninos acrescentam na linha pedaços de papéis com diversificadas palavras. Palavras escritas com carvão. As letras foram rasuradas quando corrigidas umas sobre as outras, assim rapidamente, quando Pedro pai reescreve uma palavra em cima da outra. Logo as palavras, amarradas na linha de nylon, atravessam as cercas do curral, as formas das árvores, e passam por cima da grande casa da fazenda, se elevam nas alturas: tudo aquilo se tornou muito garrido. Pedro pai manda os meninos enviar mensagens para o mundo de lá. Paz, amor, alegria, “armonia”, abundância, “cassa”, roupa, perseverança, casa, “lápisc”... Seguem para o céu em meio às trovoadas. A linha é liberada totalmente da manivela e Pedro pai não suporta tanta batalha pesada. Luta contra o tempo. Vêm os primeiros pingos da chuva, e ele, sapeca, corta com o seu canivete a linha sem que os meninos saibam. Deu a impressão de que a linha tivesse arrebentado por si mesma. Mesmo porque, àquelas alturas, o homem, resignado, não tinha como lutar mais contra a natureza. O papagaio ainda fora visto, nas alturas, pela ultima vez sendo arrastado pelo vento forte nas nuvens agitadas. Os meninos, com suas cabeças erguidas para o céu puderam ouvir ainda as palavras de Pedro pai, indo na direção do paiol, enquanto eles fugiam para dentro da casa: – Eu é que nunca vou sair da Soparimba! &

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Revista Pais & Filhos - Virtual




#livro "O ratinho do violão" escrito por Marta Reis e ilustrado por Thais Linhares. A história de Chiquinho se repete com milhares de crianças e adolescentes pelo mundo: os traumas e sofrimento causados pelo bullying. Com texto sensível e lúdico, o livro emociona adultos e crianças, ajudando a formar pessoas mais conscientes, que saibam tratar o outro com mais consciência e responsabilidade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Ratinho do Violão




Quentinho! Mais uma linda obra da escritora Marta Reis, livro infantil com belas ilustrações de Thais Linhares.
Folha de rosto
Temas: bullying / inclusão / respeito ao diferente/

Chiquinho tocava vilão como ninguém, mas mancava de uma perna e era zoado por isso... Sofreu tanto que se transformou num ratinho e foi morar em seu violão... Será ele pra sempre um menino- rato?
Nossa!... No meio da história tinha um gato esfomeado? E agora?... Quer saber detalhes? Leia o livro - recém saído do forno. Ótimo presente no Natal.

sábado, 23 de agosto de 2014

Análise crítica de Rogério Salgado





Rogerio Salgado


Quando em 2004 publicou seu livro de estreia Um carro de bois que transportava logos (Edição do Autor), apesar de ser uma grande obra, notava-se uma forte influência do escritor Guimarães Rosa em sua obra e isso é normal num primeiro livro. Agora nos chega às mãos Todos os dias de ontem (Usina de Livros), onde se percebe que seu autor desprendeu-se de influências e tomou seu próprio rumo, num livro muito bem escrito, aproximando-se da perfeição literária.

Neste seu segundo livro Todos os Dias de Ontem, Newton Emediato Filho reúne vinte contos inéditos da melhor qualidade. Sendo um projeto premiado pelo Programa + Cultura Bacia do Rio São Francisco/ FUNARTE e Ministério da Cultura, o trabalho coleta histórias de tradição oral contadas na região Centro-Sul de Minas: Alto do Paraopeba; levando em conta a alteridade.

Todos os Dias de Ontem fala de amor e é antes de tudo, um livro poético a começar pelo título, assim como em vários parágrafos do texto em si, como no encerramento do segundo conto, em que diz: “Lina nunca mais teve notícias de Luna. Estas são lembranças que evaporam-se no ar.” Nota-se as metáforas e imagens que só um grande escritor imaginarias para suas escritas. Aliás, é no fechamento dos contos que percebemos sempre uma surpresa e é quando o autor vai aos extremos de sua capacidade criadora, deixando-nos surpreendidos. Neste livro, podemos sentir que seus personagens, mesmo matutos, tem muitas vezes poesia em seu linguajar, como no conto “Retumbação” onde o vaqueiro Sim fala para Salazarte: “- O amor é como uma primavera deve ser apreciada direito, senão o sujeito não vai aproveitar o mais bonito da vida.” Uma das características mais impressionantes do livro são justamente os diálogos bastante originais, assim como os nomes de seus personagens.

Segundo palavras do autor, ele sentiu-se motivado a escrever este livro quando esteve em contato com várias comunidades remanescentes, compostas por quilombos e fazendas tradicionais, onde interagiu com vários informantes que habitam estas regiões e ali realizou-se o que se chama na Antropologia de Observação Participante. Ao ouvir estas pessoas, registrou em forma de contos, histórias de tradição oral que são contadas por essa gente. Segundo ele, a relevância em divulgar estes relatos, é uma tentativa de conscientizar os leitores a refletir sobre a importância da preservação desta cultura regional que se fragiliza a medida que o avanço tecnológico se aproxima. Em contramão desta desvalorização que vem acontecendo, neste projeto há um resgate destas tradições, levando-as ao conhecimento do mundo. Juntamente à cultura local que se perde gradualmente, também a língua se acultura, assimilando palavras do universo exterior. O resgate deste linguajar sertanejo, não tem por intenção manter a língua estática, uma vez que compreende a dialética do mundo. Todavia, quer mostrar a resistência linguística que ainda sobrevive paralela a este conflito. Portanto, o maior dos motivos de um trabalho desta natureza é o respeito à alteridade, quando leva o leitor a perceber que a valorização da cultura do outro é imprescindível. Somente assim é possível amenizar o impacto cultural entre as diferentes regiões culturais do mundo.

O escritor e pesquisador Newton Emediato Filho, natural de Belo Vale, Minas Gerais. É autor de vários ensaios sobre a obra de João Guimarães Rosa e outros. Seu conto Um Papagaio Palimpséstico recebeu os prêmios: Projeto Manuelzão/UFMG e Menção Honrosa pela Editora Guemanisse, deTeresópolis/RJ. Também foi premiado no Concurso Guimarães Rosa com o conto O tempo de um livro na IV Jornada Guimarães Rosa/UFMG, organizada pela Associação Brasileira de Médicos Escritores. Participou ainda do livro Asgard: A Saga dos Nove Reinos, lançado em 2011 pela Editora Jambô, com o conto Em Transe. Atualmente representa a Seccional da Associação Internacional dos Poetas Del Mundo de Minas Gerais. Também é Embaixador Universal da Paz pelo Círculo de Embaixadores Universais da Paz Genebra/Suíça.

Todos os Dias de Ontem é antes de tudo, um grande livro, escrito por um autor que tomou seu próprio rumo, pelo qual podemos considerá-lo uma das melhores revelações do conto brasileiro neste novo século em que vivenciamos.

Fonte:http://poetarogeriosalgado.blogspot.com.br/2013/03/todos-os-dias-de-ontem-de-newton_30.html




Resenha de Rodrigo Conçole


O livro de Newton Emediato Filho - Todos os dias de Ontem -, é um rico retrato dos tipos humanos, fatos e do imaginário do sertão. Jabuticabas Noturnas é um belo quadro do amor, permeado pela lembrança das jabuticabas, tão presentes na infância de quem vive no interior. Imagens à margem surpreende pela forma com que se trabalha a inveja num final marcante depois da delicadeza com que se relata as alegrias da infância.

Notícias que navegam é outra história muito marcante. O retrato da hospitalidade interiorana, em meio a um acidente, em Um prato muito especial faz dele um grande relato. Retumbação e Na toca dos porcos são muito divertidos. A crítica política perpassa em Paroba.

Em Lipórter e Vargem de Sant’Ana são excelentes história de fantasmas. Sem contar as outras histórias cada uma com algum traço marcante da vida rural presente ainda em algumas regiões.

Simulacro trata com perfeição o crescimento de um povoado, a partir do aparecimento de um profeta(!?), e sua decadência que nos leva a refletir sobre questões ainda atuais. Em uma obra tão diversificada do ponto de vista temático não poderia faltar o tema do adultério, como podemos ver em Máquina de descascar arroz.

Já O dito pelo não feito é um marcante relato sobre a honra e a desonra. Já em Pacheco temos o tema da morte, e o da angústia existencial, vivamente retratados.

Viajantes noturnos, O rancho, Quando o familiar é estranho, Ataliba, Os tropeiros de água limpa e Sanhaço verde são belos e fascinantes quadros da vida do sertão.

Surpreende que todos contos tenham sido coletados oralmente e se ficaram mais histórias fora do livro deveria publicar outro volume. O livro é de tão prazerosa leitura!
Rodrigo Conçole – UNISUL – Universidade/RJ



domingo, 13 de julho de 2014

Lançamento: Segunda edição de Todos os dias de Ontem


Amigos estarei lançando a segunda edição do livro Todos os Dias de Ontem, dia 14 de setembro, no 6º Festival Cultural de Miguel Burnierl (Ouro Preto).

Seguem, em ordem alfabética, as apresentações selecionadas para participarem do 6º Festival Cultural de Miguel Burnier. O período de inscrições para os artistas interessados esteve aberto entre 09/03 e 30/06/14. Até o final de julho será divulgada a programação do Festival. Participe!
São essas as apresentações selecionadas:
* Arandelas Ouro Preto (espetáculo cênico musical) - Ouro Preto;
* Banda Buttina Véia (rock internacional) - Ouro Preto;
* Cristina Froes (oficina de pintura) - BH;
* MDR (banda de RAP) - Ouro Preto;
* Mulheres em Chama (musical) - Ouro Preto;
* Newton Emediato Filho (lançamento de livro) - Belo Vale;
* NINFEIAS (cine-club, oficina e performance) - Ouro Preto;
* Projeto Quarteirão Musical (DJ's) - Mariana;
* Rafael Fernandes Miranda (solo musical) - Conselheiro Lafaiete;
* Seresta Canto de Amor (seresta) - BH;
* Seresta Rios ao Luar (seresta) - Entre Rios de Minas;
* StudioZero Ontheroad (rock nacional) - BH;
* Thiago Costa (concerto de violão solo) - Ouro Preto;
* TriballZen (musical) - BH;
* Zambi Odara (dança afro) - Ribeirão das Neves;
O 6º Festival Cultural de Miguel Burnier será realizado nos dias 12, 13 e 14 de setembro de 2014. Faça você também parte desta história. Venha!